quinta-feira, 1 de julho de 2010

Insipidez sagrada Insipidez


"Morre e transmuta-te": enquanto

Não cumpres esse destino,

És sobre a terra sombria

Qual sombrio peregrino.

(Goethe)

Lembro perfeitamente daquele odor acre que perseguia o meu pensamento enquanto subia as escadas do prédio de Helena. Todos os recursos imagináveis para impedir que o cheiro penetrasse minhas narinas eram inúteis: havia dezessete gatos vivendo no apartamento de Helena, e todos os excrementos resultantes se avolumavam pelos cantos do meu penoso trajeto. Sim, penoso, mas havia um por que, uma razão aguda para estar inserida naquela árdua batalha...

Primeiro cabe explicar quem é Helena. Garota sem sal ou açúcar, que passa pela sua vida sem ser percebida. A não ser que você a conheça por acaso e descubra a ninhada que tem em casa - Isso interessa, muito. Depois que descobri isso, me aproximei dela até conseguir sua confiança. Quanto ao dia que recordo, foi a primeira vez que ela me convidou para tomar chá em sua casa. Aceitei, é claro. E subindo as escadas, hesitei pensando se valia mesmo a pena.

Logo cheguei fronte à placa metálica 402. No tapete puído “Welcome” havia pequenas montanhas de fezes. Suspirei, olhei para o alto e toquei a campainha. Helena abriu logo a porta, com seu sorriso onipresente cujo aroma era um misto de felicidade e menta. Incrível como nunca a tinha visto triste em seis anos convivendo na mesma sala de aula. Bem, ela podia ser jovem, mas não era tola, por isso, ainda me pergunto se oferecer-me um chá não fora uma maneira de descobrir o que se passava comigo.

Helena me convidou para entrar, desviei do tapete e entrei na sala. Os móveis eram muito velhos e deteriorados e gatos pareciam saltar de todos os cantos cercando o ambiente com aqueles olhares amarelos, ameaçadores. De alguma forma eles queriam me informar de que “sabiam”. Tentando disfarçar a minha perturbação, segui a garota sem olhar para os animais. Chegamos à cozinha, pequena e sem ventilação. Ela pegou os biscoitos e colocou sobre a mesinha, encheu o bule de água e pôs sobre o fogão. “Sente-se” ela sugeriu, sendo que eu – tamanho o nervosismo - fiquei de pé, os olhos arregalados e a garganta seca. Sorri pra ela, sentei e fiquei olhando o modo como ela fazia chá.

Depois disso, sucederam-se momentos de conversa em que ela fazia perguntas frívolas e eu simplesmente respondia, tentando lidar com aquele mal estar. Daí os gatos entraram sorrateiramente pela porta atrás de mim. Eram exatamente três. Cada um roçava nas minhas pernas, de modo que senti meus músculos se contraírem num só impulso. Não, eu não podia gritar; no máximo, podia fazer careta enquanto Helena estava de costas. Quando ela percebeu o que se passava, levou os gatos para a sala. Pra mim foi até pior ter que ficar só naquele cubículo assustador, sabendo previamente que algum naqueles monstrengos apareceria para atormentar-me cedo ou tarde. “Vamos, pense na sua força, abra a sua mochila e pegue o instrumento.” Ordenei-me. O gato sabia de tudo e reagiu com tranqüilidade até o instante em que apontei o martelo pra ele. Daí a reação foi assombrosa! Com os pêlos arrepiados o bicho se elevou: o rabo grosso os olhos de pura fenda. Gelei, meus ossos eram estruturas de gelo, meu sangue era sólido, meu rosto era, apenas, meus olhos.

O felino odioso saltou em minha direção prestes a ferir-me com suas unhas iradas. Não pensei duas vezes e fiz um longo movimento de arquear o corpo para o lado direito, impulsionando a ferramenta e levando a ponta de encontro à cabeça do gatuno. “Bastet [1]não me veja!”. Aquela maça de carne voou na parede de azulejos coloniais e fez um traço vermelho até cair no chão. Houve um miado final, grotesco e ronronante como o som de um balão esvaziado.

Alívio. Fiquei ali sentindo minha respiração ofegante, admirando a minha vitória, o merecido prêmio... Quando caí em mim, percebi que algo faltava: “Onde estava Helena? Tentei sondar o que ocorria no ambiente e escutei um lamento próximo. Este choro de alguém, no quarto ao lado, era róseo, e cheirava a açúcar. Achei melhor não me envolver e esperar a guria aparecer. Seria deveras mal educado sair sem se despedir.

Limpei a parede, recolhi aquela coisa peluda sangrenta e joguei numa sacola plástica dentro da mochila. Passado todo o terror, pensei friamente que os dezesseis gatos sabiam que não era para tentar combate.

Enchi mais uma xícara de chá de camomila e esperei tranquilamente o retorno da minha amiga, sabendo que essa noite, certamente, mamãe jantaria.


[1] Deusa egípcia antropozoomórfica com cabeça de gato e corpo de mulher, símbolo do amor e da procriação.

2 comentários:

Tyr Quentalë disse...

rsrsrs caraca.. que conto mais mórbido.. tadinho do gatinho, Anne.. como vc pode ser tão monstruosa assim? Menina má...

Carol disse...

Eu?Má?Nem acho :)

Brumas Negras

Um mundo que gera tanto fascínio quanto temor.