Capaz de sorrir visualizando atitudes vis... como queria ter vivido naquela abundante época das torturas. E desejava isso em sua essência: dor e morte, em suas mãos, alimentando seus olhos, saciando seu corpo, liberando toda aquela libido reprimida; tudo de uma só vez e bem rápido.
Sussurros vindos do porão. Interrompeu-se e foi até lá. Deteve-se por alguns segundos tocando a fechadura. Entrou e logo foi surpreendido por uma vala recém aberta, vazia. Logo aquela que –tinha certeza- havia tapado. Pois bem, o que quer que seja não hesitou em crava-lhe a pá nas costas e jogá-lo pesadamente na vala cavada para abrigar outrem.
Em 2008, fiz parte de uma antologia de terror lançada pela Andross Editora, onde foi focada o contar de uma versão sobre o mito natalino sombrio. Em 2009, eu e a escritora Monica Sicuro, conseguimos lançar o livro Pacto de Monstros - Onde mitos são mais que meros contos, pelo selo Anthology da Editora Multifoco. Pretendo lançar o segundo volume ainda esse ano. E relembrando a grande ousadia dos contos natalinos, decidi convidá-los para escreverem um conto onde há um leque amplo de monstros. Há tantos pelo mundo e até mesmo no Brasil, que seria injusto deixá-los de lado. Pensando em inovar, busco contos em que Lobisomens, Múmias, Fantasmas, Monstros do Pântano, Aberrações criadas por Cientistas Loucos, Sereias, Zumbis, Saci-Pererê, Curupiras, Mulheres de Branco, Seriais Killers, Anjos (da morte, vingadores, etc), Demônios, Fadas, ou seja, todos possuam uma chance de aparecerem nessa mais nova antologia.
Para maiores dúvidas, entre em contato comigo no mail: pacto.anthology@editoramultifoco.com.br
Minha mãe sempre nos disse para ficarmos sempre juntos, meu irmão e eu. Alertava-nos, com o coração pesado de preocupação, a respeito dos males que rondavam nossa vila, fossem eles visíveis ou não. O principal deles era, talvez, as brumas negras. Os mais velhos conheciam inúmeras histórias sobre elas, o que incluía até mesmo relatos de experiências pessoais, desde amigos até famílias inteiras perdidas. “Os terrores das brumas estão além da força de qualquer espírito, até mesmo dos mais bravios”, dizia um provérbio de nosso povo. Mesmo aqueles que conseguiam retornar, voltavam profundamente alterados, a ponto de se crer que estavam possuídos por espíritos malignos, embora alguns poucos conseguissem recobrar parte de sua normalidade novamente. Porém, havia algo que afligia a todos esses desafortunados pelo resto de suas existências: nenhum deles era capaz de reproduzir o que haviam presenciado enquanto estavam perdidos em meio às névoas sem fim.
Meu irmão, que era cerca de quatro anos mais velho que eu, sofria de um intenso pavor das brumas. Ao menor sinal de uma formação neblinosa, fosse ela natural ou enegrecida, ele logo corria para casa e oferecia preces a todos os deuses e espíritos que lembrasse, normalmente me arrastando consigo. Mesmo que a maioria dos desaparecimentos ocorresse após o crepúsculo, seu medo letárgico também se estendia às neblinas da aurora. Por muitas vezes foi incapaz de ajudar nossos pais no serviço matutino, sobretudo porque as terras que cultivávamos ficavam próximas ao rio que cortava nossa vila. Dizia ele que todo esse temor era fruto de uma série de pesadelos, nos quais era exposto a toda sorte de horrores em meio às brumas negras. Entretanto, ele nunca se aprofundava respeito dessas visões oníricas, alegando ser tomado por grande aflição quando tocavam em tal assunto. Eu sempre desconfiei que tais pesadelos não passavam de invenção, mas nunca fui corajoso o suficiente para dar voz à essa suposição, temendo uma reprimenda violenta de meu irmão.
Contavam também as lendas de nosso povo que apenas as bruxas eram capazes de trilhar o caminho que desejassem em meio às brumas. Tais vias, se dizia, eram extremamente sinuosas e aparentemente não conduziam a lugar algum, mas no fim se revelavam um precioso atalho. Entretanto, apenas os loucos e os desesperadamente necessitados se arriscavam a divisar as brumas tendo uma feiticeira como guia. Os grandes senhores, que habitavam as colinas e se vestiam com armaduras de metal e soberba, davam caça a elas de quando em quando, pois temiam sua ardilosa magia. Justificavam seus atos com palavras de suposta pureza e justiça, mas atraíam para si ainda mais maldições e imprecações de mau agouro. Mal sabiam eles o mal que causariam a dois pobres garotos.
Nos primeiros dias do inverno mais rigoroso de nossas vidas, meu irmão e eu assistimos ao selar do destino de mais uma vítima dos senhores guerreiros. Atada a um tronco e prestes a ser engolfada por chamas impiedosas, uma mulher de aparência rústica e cansada fulminava a todos presentes no coração de nossa pequena vila com seu olhar de desespero e ira. Sua dor era tão grande que até mesmo embotava-lhe a razão. Suas palavras de fúria eram descarregadas até mesmo sobre nós, humildes pessoas do campo, tão ou mais impotentes que ela diante dos lordes das fortalezas de pedra. E foi então que meu maior temor tornou-se real. Os olhos da condenada feiticeira fitaram os de meu irmão, paralisando-o de terror enquanto suas maldições invocavam vingança através das brumas negras.
Abalado pelo mais profundo e íntimo dos horrores, meu irmão, assim que pôde, pôs-se a correr de forma desvairada, como que possuído por uma loucura instantânea. Rapidamente disparei em seu encalço, abrindo espaço em meio a uma multidão indiferente a nós dois. Nossa corrida logo nos levou além dos limites do vilarejo, adentrando matas úmidas e escurecidas pelo final do entardecer. Antes que meu irmão retomasse as rédeas de seus atos, estávamos duplamente perdidos: tanto em meio ao arvoredo sem trilhas quanto um do outro. Gritamos para tentarmos ao menos nos reencontrar, mas nossas vozes pareciam abafadas e sem vigor. O véu noturno desceu sobre nós, minando nossa esperança. A lua quase cheia, nossa única fonte de luz, serviu-nos apenas para nos revelar nossa praga derradeira, esgueirando-se em meio à escuridão. Lá vinham as brumas negras, já mordiscando nossos calcanhares, engolindo-nos em pânico e perdição. Eu quase podia sentir meu irmão amaldiçoando os velhos deuses, aos quais sempre erguera suas preces, por tamanha desgraça. E assim foram cumpridas as últimas palavras da bruxa em chamas.
A princípio, senti meu corpo entorpecido, como que exausto por vários dias de trabalho. Minha respiração tornou-se pesada, o ar parecia espesso e opressivo. Senti o cheiro do início das chuvas atingir-me o olfato, um súbito frio arrepiou-me a pele. Tudo que eu via eram névoas, enegrecidas como raivosas nuvens de tempestade. O mundo girava e dançava ao meu redor, me desnorteando totalmente. Se eu julgava aquele tormento físico o pior dos castigos, nem sequer imaginava o quão maltratada seria minha alma. A todo momento pensava que terrível fim teria eu, um pobre jovem, sozinho e tomado pelo terror. Pensar no destino de meu irmão me afligia tanto que não era capaz de fazê-lo por muito tempo.
Logo vieram as vozes, lamuriantes, brotando de todas as direções num verdadeiro pandemônio. Sussurram-me coisas horríveis, plantavam-me o medo. Quando verdadeiramente pude notar, constatei que todas elas revelavam-me segredos terríveis dos recessos obscuros dos corações daqueles que se perderam nas brumas. Havia tantas dúvidas, tantos receios, tantos rancores, tantos pecados. Em meio àquele turbilhão de angústias, pude perceber que perder-se em meios as brumas também significava perder-se dentro de suas próprias aflições. Encarar a certeza do fim fazia com que os perdidos pusessem seus passados numa balança, consumindo-os no remorso e torturando-os com as tarefas inacabadas. As névoas não traziam apenas a morte, mas também a loucura.
Infelizmente, minha iluminação deu-se tardia demais para livrar-me de sua verdade nociva. No período atemporal que passei em meio ao bosque enevoado, notei o quão profundamente temia a solidão. Chorava por meu irmão, porém mais por me sentir inseguro sem ele do que por seu próprio destino. E assim fui castigado, apartado de qualquer companhia até o mais delirante desespero. Quaisquer que sejam as forças por trás das brumas, creio que elas tenham se dado por satisfeitas e me libertado quando eu já desejava a morte, sendo esse o seu ato mais cruel.
Meu irmão nunca retornou daquele episódio. Outras seis pessoas o acompanharam naquela noite, formando o cortejo dos perdidos para um lugar desconhecido. Quanto a mim, fui afetado de tal forma que nunca mais pude permanecer só sem ser torturado por aquelas terríveis lembranças. Compreendi também porque os sobreviventes das brumas nunca falam sobre suas experiências. Afinal, a perdição está sempre dentro de si próprio, e essa é uma lição que apenas as almas vestidas em metal e vigor genuínos podem aprender.
Na véspera do sétimo Natal de sua vida, ela carregava em silêncio o peso das asas falsas. Noites antes, ouvira da mãe que deixaria de ser um anjinho. E as verdadeiras asas sequer haviam crescido. Desde então, só pensava em evitar o triste fim, mas como? Ao soar o sino, aproveitou-se da confusão do presépio e fugiu. Dias depois, achou-se a auréola num terreno baldio. Descobriu-se a duras penas que não é raro e nem difícil tornar-se anjo para sempre.
Por toda a minha vida, fui um profundo cético. Desde alguns eventos desagradáveis ainda na tenra infância, tenho me apegado a um pragmatismo quase fanático, talvez como uma forma de defesa contra coisas que me abalariam a sanidade se realmente fossem reais. Talvez isso me torne o ser humano mais vazio ou hipócrita que a grande maioria das pessoas poderia conhecer, mas elas jamais entenderiam minhas motivações mais fundamentais. Quando se tem uma ferida enterrada em sua alma, é natural que se tente isolá-la de todas as formas, jamais se aproximando dela o mínimo que seja, tanto em intenções quanto em pensamentos. Entretanto, para alguns, essa ferida torna-se uma eterna chaga, sempre a verter agonia escarlate, criando o jardim perfeito para que floresça a loucura. Para estes, nos quais me incluo, restam apenas os caminhos da decadência ou o eterno combate a fim de suturar tal ulceração. Nesta batalha interior, tomei como armas o raciocínio lógico e meu mencionado ceticismo fanático, os salvadores de minha tênue sanidade.
Desde a juventude, dediquei todos os meus esforços a fim de obter um sólido conhecimento acadêmico, através do qual provaria irreais todo tipo tal de fantasia paranormal, comprovando, sobretudo a mim mesmo, o quão tolo era meu sofrimento pessoal. E assim, por anos, tentei enganar-me. Fui insensível para com minha própria pessoa, tentando enterrar-me sob camadas de retórica aplicada e estudo avançado. Quanto mais longe eu ia, mais difícil me era conseguir olhar para o início de toda aquela trajetória. Aos poucos, acabei por quase convencer-me de que minha macabra experiência não passara de um fruto de minha febril imaginação infantil, tal era meu grau de rejeição e racionalização. Mal suspeitava que esta era apenas a semente de um mal muito maior, regada pelo meu auto-infligido martírio interior até seu desabrochar.
Meus antigos terrores se utilizaram dos insondáveis portões do mundo onírico para retornarem, vestidos em noite escura. Abateram-se sobre minha doce amada, maculando seus frágeis sonhos, tal era seu grau de sordidez. Quando ela acordou, aos gritos mais estridentes, um antigo medo cravou-se em meu peito, talvez fruto de minhas memórias quase inconscientes. Tão paralisante era seu choque que ela nenhuma palavra de explicação pôde me dirigir, limitando-se a fitar com olhos sem foco algum canto escuro qualquer, trêmula. Apenas quando já se findava a hora mais fria da madrugada que esboçou alguma reação, embora eu tivesse por preferência que ela se mantivesse da mesma forma até o fim de seus dias a tê-lo feito. Com o sangue a congelar nas veias, ouvi de seus lábios os mesmos dizeres que os meus já haviam, há tanto anos, proferido: “Não desejo conhecer verdade alguma. Deixem-me em paz.” Dito isso, jogou-se a um intenso pranto desesperado.
Oh, quantos dias febris se seguiram depois. Minha amada era visitada sempre que as trevas se abatiam sobre o céu, não havendo nem mesmo a necessidade que conciliasse o sono. Segundo seus relatos, eles sempre lhe revelavam coisas terríveis, instruindo-a com sua catequese profana. Procurei, através de todos os meios que me eram acessíveis, uma resposta para aqueles acontecimentos tão repentinos, que insistia em chamar de surtos psicóticos, mesmo não havendo razão nenhuma aparente para que eles surgissem. Despendi toda minha pequena fortuna em médicos e especialistas, obtendo sempre a mesma falta de resultados.
A capacidade de repousar tranquilamente tornou-se inatingível, pois meus pensamentos convergiam sempre para minha nobre amada e sua situação deplorável, atormentada por criaturasalém da compreensão. Minha antiga cicatriz voltava a afligir-me, corroendo-me novamente a razão. Mesmo que meu interior gritasse a verdade, negava-me em aceitá-la terminantemente. Meu orgulho de homem da lógica fora ferido, sobretudo por se tratar de algo tão próximo, tão íntimo, mas ao mesmo tempo tão distante de toda explicação humana. Ah, que torturante me era contemplar os olhos encovados de minha mulher, privada de toda paz de espírito, bombardeada por segredos tão escusos que ela não ousava sequer sussurrá-los sob o véu da inominada escuridão.
O arrastar do tempo, junto com a falta de respostas, fazia-me delirar. Cada novo grito de terror me era uma nova facada no coração. E como meu interior já sangrava! Começava a me sentir pesaroso, pois sabia que todo aquele tormento era destinado e originado por mim. Aos poucos, meu amor por minha noiva foi transformando-se em culpa, e eu já sofria mais que a própria, mergulhado em meus terrores pessoais. Aquilo era tão absurdo e insuportável que parecia simplesmente não ser real. De fato, comecei a desejar que realmente não o fosse, e esse desejo acabou por motivar o pior de meus pecados.
Com lágrimas nos olhos, disparei sete vezes contra minha pobre amada, dando por certo que livrava a nós dois de um peso terrível. Seu sangue rubro manchava os alvos lençóis que lhe serviram de manto de morte, assim como a loucura grassava por minha psique em cheque. Agora, não haveria nada mais que a culpa para desafiar minha razão, e rogo para que eles permitam que assim seja, pois nenhum homem suporta ter seus pilares destruídos de forma tão súbita e sem piedade.